Disclaimer: eu preciso de algum tempo e de ouvir os discos mais de dez vezes antes de formar uma opinião. Quando saiu o Fires Within Fires foi uma desilusão — não gostei mesmo. Mas depois, lá fui insistindo e consegui aprender a “perceber” e a gostar muito do disco — que acho que mostra uma banda que, por ter atingido um nível avançado de maturidade, se mostra muito despida, stripped to the essentials, sem truques, sem refúgios, sem merdas.
Quanto a este:
Não fiquei mega fã da abertura do disco. Aquela “We Are Torn Wide Open” parece uma cena meio juvenil — e não acrescenta nada, só constata o óbvio. Deus Nosso Senhor me perdoe, mas parece o tipo de cena que uns Machine Head fariam (e fizeram).
No geral, ao menos, soa-me indubitavelmente a Neurosis. Em termos de composição parece-me cru e directo q.b., um pouco rudimentar em termos de riffs, talvez, e não necessariamente no melhor sentido do termo, isto é, o riff da Given to the Rising é a coisa mais rudimentar do mundo mas é dos riffs mais Neurosis deles, é óptimo.
Dizer que, de certa forma, me parece pouco inspirado ou meio preguiçoso seria injusto — mas não anda muito longe dessa ideia. Acho-o competente, sem dúvida, cheio de personalidade, mas talvez falte qualquer coisa. Pode ser que com outras escutas essa ideia se dissipe — julgo que sim. Até porque à medida que o disco ia avançando comecei a gostar mais e a achá-lo mais intrincado.
Se por um lado acho que não desvirtua a carreira de ninguém — continua a ser melhor do que 90% do que por aí anda — por outro não sei se desbrava muito território no contexto da discografia deles. Parece-me ir buscar coisas aos últimos três, e trabalhar a partir daí.
Uma coisa é certa, e eu, tirando o facto que todos sabemos, sempre gramei muito o Scott Kelly, que acho que era uma figura central na banda, apesar de ser menos “músico” que os outros: o Aaron, sendo um músico e um guitarrista muito mais completo que o Kelly, deve ter desafiado o Steve como nunca e, juntos, cresceram. O Aaron é obrigado a ser mais melódico e, de certa forma, tradicional, e o Steve a pintar com cores e pincéis novos e diferentes ao fim de tantos anos — e acho que resulta bem. O meu medo era mesmo o de o Aaron assentar de uma forma demasiado intrusiva, mas não é o caso — não está propriamente subtil (nem podia), mas faz todo o sentido.
Gostei dos leads de guitarra meio melódicos, meio dissonantes — cheira-me que são coisas do Aaron. Por outro lado, os riffs, e os versos/ritmo achei um bocado “banais” — acho que foi o que me saltou mais à atenção pela negativa. Provavelmente com mais escutas começo a descortinar os pormenores (aquela Seething and Scatered já tem ali uma parte fodidona de que gostei).
O Noah está mais presente — que não gosto nem desgosto — mas parece menos sinistro e “diferente de tudo” do que como nos tinha habituado.
Achei o final do disco fraco — tem uma secção inteira que parece indie rock da piça; e depois acaba bem mas soa a uma repetição do que já fizeram.
Uma coisa que me chateou: as letras parecem-me muito dumbed-down e, de certa forma, às tantas, redundantes. Foda-se, conseguir perceber letras de Neurosis é quase uma novidade.
No geral, mais do que aliviado, até fico satisfeito. Mas ainda é cedo para veredictos. Parece-me que tem potencial para amadurecer e eu aprender a gostar mais dele, como aconteceu com o Fires.
A única coisa que me está a chatear é que me soa a Neurosis, sim, mas como se não tivessem sido tão exigentes com eles próprios como de costume — “já ouvi isto, mas melhor, mais fresco”.
Acredito que cresça.