Confrontos em Paris

Avatar do Utilizador
Nattassha
Metálico(a) Compulsivo(a)
Mensagens: 499
Registado: quinta dez 16, 2004 1:38 pm

Mensagempor Nattassha » quarta nov 09, 2005 10:11 am

vírgula Escreveu:Se os problemas deste mundo fossem tão simples como "a culpa é do hip hop", já há muito que tudo se tinha resolvido.

Esta situação é só um sintoma de uma causa maior.
Podemos dizer que isto a acontece porque são jovens delinquentes, que são, mas isso é só mais um sintoma.
Pensar que se limita a isto é, como já disseram, querer tapar o sol com a peneira. Assim é mais fácil, não se mói tanto a cabeça.
E achar que com o uso da força tudo acabava, e que tal só não está a acontecer porque "os muçulmanos e os pretos" são coitadinhos, também me parece pouco sensato.
E não, não é "treta bloquista ou esquerdista ou blablablas afins".
A violência e a revolta não se combatem com a força. Já todos o deviam saber. Uma árvore não morre se lhe cortarem as folhas ou uns ramos. Só faz que rebente com mais força.


concordo...há que arrancá-las pela raiz ou incenerá-las....e a culpa do hip hop é redutor de facto, mas em nova reportagem feita ontem por um jornalista português junto dos jovens deliquentes, continuo a achar que tem muita importância como veiculo de inflamação das mentes pequenitas...assim como qq outro tipo de forma de propaganda.é giro ver que os putos não se quedam de perante a comunicação social, expressar as suas letras, ao som rapado com música de um telemovel.

Avatar do Utilizador
venahemi
Metálico(a) Compulsivo(a)
Mensagens: 369
Registado: domingo fev 20, 2005 8:23 pm

Re: exclusao social

Mensagempor venahemi » quarta nov 09, 2005 10:13 am

otnemeM Escreveu:
venahemi Escreveu:Se é a mais falsa, não lhe faz impressão nenhuma...

Mais falsa? Qual é essa solução "falsa" e quais são as mais "verdadeiras"?
(não é ironia, é curiosidade)


Falsa é a que é ilusória, não resolve o problema: a França para os franceses. A que no final resolver o problema é a verdadeira. A apostar em alguma eu apostava em maior investimento social.
:cheers:

Avatar do Utilizador
Einherjer
Ultra-Metálico(a)
Mensagens: 1137
Registado: quinta nov 11, 2004 3:18 pm
Localização: Valhalla (ou S. Jorge de Arroios, agora nao me lembro)
Contacto:

Mensagempor Einherjer » quarta nov 09, 2005 10:32 am

a frança não pode investir mais que o que já investe no plano social.
o estado de previdência francês é dos melhores e mais eficientes do mundo, rivalizando com os dos países nórdicos.
quando se irá meter na cabeça que as desigualdades sociais em frança são o factor que menos contribuiu para a violência dos ultimos dias!

é um conjunto de problemas, ao qual não podem ser alheados outros factores menos populares entre certas faixas da população... normalmente aquelas que não vivem tais problemas na pele...

já agora, ontem em argenteuil, queimaram uns carros mesmo ao pé da escola frequentada pelo meu afilhado... escola gratuíta, excelente, com bons professores e onde se encontram excelentes alunos... cerca de 50% dos alunos são oriundos de minorias... como o meu afilhado, considerado português...

é igualmente importante lembrar que a grande maioria dos carros queimados são propriedade de magrebinos, que queimaram escolas e infantários que servem principalmente magrebinos, e que num dos ataques feitos a um autocarro feriram uma mulher magrebina com queimaduras de 3º grau...

há causas sociais para estes acontecimentos, assim como causas culturais... o problema tem de ser abordado de frente e com coragem, corrigir o que está mal, melhorar as condições de vida, onde devido, mas também mostrar grande firmeza para com todos aqueles que desrespeitam de forma consistente as leis e normas de uma sociedade que sempre mostrou uma enorme tolerância para com as outras etnias e culturas...
"If you want a picture of the future, imagine a boot stomping on a human face. Forever." O'Brien

Avatar do Utilizador
otnemeM
Ultra-Metálico(a)
Mensagens: 6595
Registado: terça mai 18, 2004 2:02 pm
Localização: Éire
Contacto:

Re: exclusao social

Mensagempor otnemeM » quarta nov 09, 2005 11:08 am

venahemi Escreveu:
otnemeM Escreveu:
venahemi Escreveu:Se é a mais falsa, não lhe faz impressão nenhuma...

Mais falsa? Qual é essa solução "falsa" e quais são as mais "verdadeiras"?
(não é ironia, é curiosidade)


Falsa é a que é ilusória, não resolve o problema: a França para os franceses. A que no final resolver o problema é a verdadeira. A apostar em alguma eu apostava em maior investimento social.

Nao resolve o problema?
Se o Le Pen se decidisse a repatriar de imediato todo e qualquer um que fosse migrante ilegal, cometesse crimes ou tivesse tido uma unha que seja a ver com estes acontecimentos, o que haveria de falso ou ilusório nisto?
Não estou a dizer que apoio e muito menos que seria humano, etc etc, mas aposto que neste momento, para uma grande parte das pessoas que andam a sofrer na pele, é a unica solução que apresentaria resultados.

Mais investimento social? Porque não transformar-se logo num care center gigante e parar o país em tudo o resto que exigisse dinheiro?

Avatar do Utilizador
vírgula
Ultra-Metálico(a)
Mensagens: 1064
Registado: sábado out 16, 2004 8:15 pm
Localização: Fiães
Contacto:

Mensagempor vírgula » quarta nov 09, 2005 12:28 pm


Porque é que a França está a arder?
– A rebelião de uma geração perdida –

Doug Ireland
Znet

Sábado à noite foi o 10º dia dos extensivos motins de jovens que mantêm uma boa parte da França em chamas – e foi a pior noite desde que o primeiro motim explodiu num gueto suburbano de Paris de habitações de baixo rendimento, com 1295 veículos – de carros privados a autocarros públicos – queimados ontem à noite, um grande salto em relação aos 897 ardidos na noite anterior. E, pela primeira vez, a violência nascida nos guetos suburbanos invadiu ontem à noite o centro de Paris – uns 40 veículos foram postos em chamas no Le Marais (o lugar custoso do famoso gueto gay de Paris), em torno da vizinha Place de la Republique, e no burguês 17º distrito, a curta distância do delapidado gueto de Goutte d’Or no 18º distrito.

Como alguém que viveu em França durante quase uma década, e visitou esses guetos suburbanos, onde a violência começou, em várias viagens para fazer reportagens, não fui surpreendido por este tsunami de rebelião juvenil incipiente que está a submergir a França. É o resultado de trinta anos de negligência governamental: do falhanço da classe política francesa – tanto de esquerda como de direita – de fazer algum esforço sério para integrar as suas populações muçulmanas e negras na mais alargada economia e cultura francesas; e do racismo bem enraizado, árido, destruidor de almas que os jovens profundamente alienados e desempregados dos guetos enfrentam cada dia das suas vidas, tanto por parte da polícia, como quando tentam encontrar um trabalho ou uma casa decente.

Para entender as origens desta crise profunda para a França, é importante recuar e recordar que os guetos onde o ressentimento inflamado rebentou agora em chamas foram criados por uma política industrial do estado francês.

Se a população de origem imigrante de França - na maioria árabe, alguma negra - é hoje bastante grande (mais de 10% da população total), é porque houve uma política governamental e industrial durante os anos de boom da reconstrução e expansão económica do pós IIª Guerra Mundial que os franceses chamam "les trentes glorieuses" - os 30 anos gloriosos - para recrutar das colónias estrangeiras da França trabalhadores e operários fabris e subalternos para empregos para os quais não havia franceses disponíveis. Estes trabalhadores imigrantes, principalmente do Norte de África, eram trabalhadores árabes que a Renault desesperadamente precisava para permitir à economia francesa expandir-se, devido à escassez de mão-de-obra masculina causada por duas Guerras Mundiais, que mataram muitos franceses e também cortaram a taxa de nascimentos de nativos franceses. Além disso, estes trabalhadores imigrantes (especialmente marroquinos, particularmente favorecidos na indústria automóvel) eram preferidos pelos empregadores industriais por serem passivos e não propensos a greves (em agudo contraste com a classe trabalhadora continental francesa politizada e os seus militantes sindicatos em grande parte dirigidos por comunistas) e mais baratos de contratar. Por esta razão, em algumas indústrias, a alfabetização era uma desqualificação – porque um trabalhador árabe que pudesse ler poderia educar ?se acerca da política e tornar ?se mais susceptível à organização num sindicato. Este influxo de trabalhadores árabes (muitos dos quais então pouparam para trazer as suas famílias do Norte de África para França) patrocinado pelo governo e pela indústria, foi reforçado a seguir à independência da Argélia pela chegada dos harkis.

Os harkis (cuja história é contada de uma forma comovente por Dalila Kerchouche no seu Destins de Harkis) eram os argelinos nativos que lutaram e trabalharam com a França durante a lutas anti ?coloniais do pós?guerra pela independência – os quais, pelo seu incómodo, foram tratados horrivelmente pela França. Uns 100.000 harkis foram mortos pela FLN (Frente de Libertação Nacional) argelina depois de os franceses descaradamente os terem abandonado ao seu letal destino quando o exército de ocupação francês evacuou os colonialistas franceses e a si próprio da Argélia. Além disso, as famílias harki que foram salvas, frequentemente por iniciativa individual de comandantes militares que se recusaram a obedecer a ordens para não os evacuar, uma vez em França foram estacionados em indescritíveis, sujos, apinhados campos de concentração durante muitos longos anos e nunca beneficiaram de qualquer ajuda governamental – uma boa recompensa pelos seus sacrifícios pela França, da qual eram, no final de contas, cidadãos legais. Os seus filhos e netos guetoizados, naturalmente, abrigam certos ressentimentos – a tragédia harki é ainda uma ferida aberta para a comunidade franco ?árabe.

Os outros trabalhadores imigrantes de França foram armazenados em enormes guetos de arranha ?céus de habitações de baixo rendimento – conhecidos como ”cités” (os americanos diriam “the projects”) – especialmente construídos para eles, e deliberadamente colocados fora da vista nos subúrbios em torno da maioria dos principais aglomerados urbanos de França, de modo que os seus habitantes de pele mais escura não poluíssem os centros citadinos de Paris, Lyon, Toulouse, Lille, Nice e as outras de centros urbanos da França branca, hoje circundados por chamas. Frequentemente, havia apenas a oferta de transporte suficiente para levar estes árabes e negros não educados da classe trabalhadora directamente para os seus trabalhos nas fábricas que despontavam no “périphérique” – as periferias suburbanas que rodeavam Paris e as suas mais pequenas irmãs – mas pouca ou nenhuma que ligasse os guetos aos centros urbanos.

Agora com 30, 40 e 50 anos, estes altos armazéns humanos nos subúrbios isolados são hoje lugares sinistros, desgastados, delapidados, com elevadores avariados que permanecem por reparar, sistemas de aquecimento deixados sem funcionar no Inverno, lixo e fezes de cão nos becos, janelas partidas, e poucas comodidades comerciais – a compra de artigos de primeira necessidade é frequentemente bastante limitada e difícil, o entretenimento e as instalações recreativas para a juventude são intermitentes e totalmente inadequadas quando não inexistentes. Tanto os apartamentos como as escolas estão superlotados (o controle de natalidade é tabu na cultura muçulmana que os imigrantes trouxeram com eles e transmitiram às suas crianças, e mesmo para os seus netos de hoje – que adoptaram a cultura hip-hop e criaram a sua própria música rap de língua francesa de extraordinária vitalidade (que frequentemente incorpora irreverente conteúdo político e social) – os preservativos são recusados por causa do machismo árabe, o que contribui para aumentar as taxas de SIDA nos guetos.

A primeira semana de Dezembro assinalará o 22º aniversário da Marche des Beurs (beur quer dizer árabe no calão francês). Estive presente para ver o cortejo de 100.000 chegar a paris – foi o equivalente franco ?árabe da Marcha sobre Washington por Empregos e Justiça do Dr. Martin Luther King em 1963. A Marche des Beurs foi organizada a partir do enorme, horrífico gueto suburbano em altura, Les Minguettes, com a ajuda de um carismático padre ?operário católico francês de esquerda, o padre Christian Delorme, e o seu tema central foi a reivindicação de serem reconhecidos franceses «comme les autres» - como os outros.... Uma reivindicação, em suma, de completa integração. Mas para a massa de franco ?árabes pouco mudou desde 1983 – e o movimento integracionista dos “jeunes beurs” criado em torno dessa marcha esgotou ?se em frustração e desespero à medida que o sonho de integração falhou. Em anos recentes, o seu lugar foi tomado por fundamentalistas islâmicos que operam através de mesquitas locais – o símbolo mediático deste retrocesso para uma política separatista, comunitária ?religiosa é o demagogo Tariq Ramadan, um professor de filosofia que usa um discurso cosmeticamente democrata quando fala na televisão francesa, e um discurso ardente de linha ?dura nas cassetes de língua árabe dos seus discursos que se vendem como bolos quentes à juventude franco ?árabe dos guetos. (A dupla linguagem de Ramadan foi meticulosamente documentada e exposta, e os seus fortes laços aos primitivos religiosos extremistas da Irmandade Muçulmana (fundada pelo seu avô) detalhados, pela jornalista que fala árabe Caroline Fourest no seu livro publicado no último Outono pelas Editions Grasset, Frere Tariq: discours, methode et strategie de Tariq Ramadan, extractos do qual foram publicados no semanário L’Express). Mas a actual rebelião tem pouco a ver com o fundamentalismo islâmico. É o grito angustiado de uma geração perdida em busca de uma identidade, filhos apanhadas entre duas culturas e não pertencendo a nenhuma – uma rebelião de crianças que, nascidas em França, e frequentemente falando pouco árabe, não conhecem o país onde os seus pais nasceram, mas que se sentem excluídas, marginalizadas e invisíveis no país em que vivem.

Em 1990, Francois Mitterrand – o presidente socialista de então – descreveu como era a vida para os jovens desempregados do gueto armazenados nas apinhadas “cités”:

«Que esperança tem um jovem que nasceu num bairro sem alma, que vive num feio e indescritível arranha ?céus, rodeado de mais fealdade, aprisionado por paredes cinzentas em ermos cinzentos e condenado a uma vida cinzenta, com uma sociedade em torno que prefere olhar para o outro lado até que seja tempo par ficar furioso, tempo para proibir?»

Bem, as palavras perceptivas e comoventes de Mitterrand permaneceram apenas isso – palavras – pois a sua política urbana foi um falhanço subfinanciado e desfocado que apenas colocou algumas ligaduras num cancro em gestação – e 15 anos depois do diagnóstico de Mitterand, o desesperação e a alienação destes jovens do gueto e das suas “vidas cinzentas” só se tornou ainda mais profunda e râncida.

A resposta aos últimos dez dias de rebelião juvenil violenta pelo governo conservador foi inepta e surda. Durante os primeiros quatro dias da rebelião, Chirac e o seu primeiro ?ministro Dominique de Villepin decidiram deixar o hiper ?ambicioso, megalomaníaco ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, conduzir a resposta do governo à violência e incêndio provocado dos jovens. Chirac e Villepin detestam Sarkozy, que tem feito abertamente campanha para substituir Chirac como presidente em 2007 (Villepin foi feito primeiro ?ministro na esperança de que poderia bloquear Sarkozy para a nomeação presidencial da direita). O presidente e o seu primeiro ?ministro pensaram que “Sarko”, como é vulgarmente referido em França – que ganhou a sua difundida popularidade como um demagogo da linha ?dura, da lei e da ordem no tema da insegurança nacional – seria incapaz de parar a violência, e assim prejudicar a sua campanha presidencial.

Mas Sarkozy apenas verteu gasolina verbal sobre as chamas, dispensando a juventude do gueto nos termos mais insultantes e racistas e convocando a uma política de repressão. “Sarko” fez manchetes com as suas declarações de que iria «limpar com kärcher» os guetos de «la racaille» – palavras que a imprensa dos EUA, com notória inadequação, traduziu por “limpar” os guetos de “escumalha”. Mas essas duas palavras têm um sabor infinitamente mais duro e insultante em francês. “kärcher” é o conhecido nome de marca de um sistema de limpeza de superfícies por jactos de areia ou de água de alta pressão que muito violentamente depila a casca exterior do lixo incrustado – como fezes de pombo – mesmo sob o risco de danificar o que está por baixo. Aplicar este termo a jovens seres humanos e apresentá ?lo como uma estratégia é um insulto verbal fascista e, como política proposta por um ministro do Interior, é tão perto quanto se pode chegar de “limpeza étnica” sem de facto o dizer. Implica o poder e a força policiais brutas usadas de forma muito agressiva, com pouca consideração pelos direitos humanos. Pergunto ?me quantos correspondentes anglo ?americanos apreendem o terrível e inflamatório sabor vicioso da palavra em francês? A tradução de “karcheriser” por “limpar” perde completamente a violência provocativa, incendiária do que Sarko estava realmente a dizer. E “racaille” é infinitamente mais pejorativo que “escumalha” para um francês – tem o sabor de caracterizar todo um grupo de pessoas como subumanos, inerentemente maus e criminosos, inúteis, e é, por outras palavras, um dos insultos mais sérios e desumanizantes que se poderia lançar contra a juventude revoltada do gueto. Gasolina, de facto.

À medida que a rebelião se espalhou para lá dos subúrbios de Paris tão a sul como Marselha ou Nice e tão a norte como Lille, Sarkozy tem trovejado que a violência expansiva é “organizada” centralmente. Mas esta manhã ao telefone de Paris, o deão dos repórteres de investigação franceses – Claude Angeli, editor de Le Canard Enchainé, um dos mais perspicazes analistas políticos que conheço – disse ?me «Isso não é verdade – isto não está a ser organizado por fundamentalistas islâmicos, como Sarkozy pretende dar a entender para assustar as pessoas. Claro, os putos nos bairros estão a usar os seus telemóveis e mensagens de texto para se avisarem uns aos outros de onde vem a polícia para que se possam mover e escolher outros alvos para pôr o fogo. Mas a rebelião está a espalhar ?se por todo o país porque os jovens têm um sentido de solidariedade entre si que vem de ver televisão – imitam o que estão a ver, experimentaram eles próprios o mesmo abuso policial racista que ajudou a despoletar os motins, e sentem ?se eles próprios alvejados pela retórica inflamatória de Sarkozy. A rebelião está a espalhar ?se espontaneamente – accionada especialmente pela conduta policial racista que é a sorte diária destes jovens. É incrível o nível de racismo policial – estes jovens são presos ou controlados pela polícia, sacudidos, empurrados, e têm os seus documentos verificados simplesmente porque têm sinais escuros, e a polícia é brutal verbalmente, chamando ?lhes “bougnoules” [um insulto racista como o americano “towell ?heads”, mas pior], “árabes imundos” e mais. A polícia late “Baixa os olhos! Baixa os olhos!” como se nem sequer tivessem o direito de olhar um polícia na cara. É totalmente desumanizante. Não admira que estes putos se sintam tão divorciados da autoridade.»

Uma reportagem de equipa no diário francês Libération (onde em tempos fui um colunista) de hoje, entrevista jovens de gueto, e pede?lhes para explicar as razões da sua ira. E, informa o jornal, «Todos, ou quase todos citam “Sarko”. [...] um estudante de 22 anos diz «Sarkozy deve ?nos desculpas pelo que disse. Quando vejo o que se passa neste momento, volto sempre à mesma imagem: Sarkozy em Argenteuil, erguendo a sua cabeça e trovejando, “Senhora, vou limpar isso tudo”. Resultado? [...] Sarko enfureceu toda a gente. Ele mostrou um desrespeito total em relação a todos» no gueto». Um jovem de 13 anos diz aos repórteres do Libération: «Somos nós que vamos fazer Sarkozy passar pelo kärcher». «Participei?» Sorri e diz: «Isso é segredo de defesa».

Outro jovem de 28 anos: « Aqueles que põem fogo? Têm entre 14 e 22 anos. Não se sabe realmente quem são, porque aqueles que fazem aquilo, não falam. Mascaram o rosto e não vêm armar-se no dia seguinte. [...] Mas em vez de tudo destruir, fariam melhor em manifestar-se ou ir estragar em Paris». [Eric, de 34 anos:] «Temos um ministro que disse: “Vocês são todos iguais”. Eu, digo-me não, todos nos dizemos não. Mas retorna-nos “vocês são todos iguais”. Então, isso criou algo em comum. E agora, é mais violento em certos lugares porque as pessoas querem atrair o olhar para elas. Dizem-se: “Se provocarmos o pânico, seguidamente não nos esquecerão, saberão que somos zona sensível”.

Ontem, quando Sarkozy – que é ministro da Religião bem como do Interior – queria fazer uma aparição na conferência de bispos católicos em Paris, eles recusaram ?se a deixá ?lo falar – e, em vez disso, os bispos emitiram uma declaração de alerta denunciando «aqueles que apelam à repressão e instilam o medo» em vez de responder às causas económicas, sociais e raciais dos motins. Esta foi uma repreensão inusual dirigida directamente a Sarkozy.

Sob a manchete “A redução das ajudas exaspera presidentes de câmara suburbanos”, o Le Monde polícias de bairro para fazer trabalho preventivo que neutraliza a alienação e violência juvenil, a alternativa é esperar por mais explosões de violência e enviar a CRS CRS (Compagnies Republicaines de Securite, uma polícia de motins de linha ?dura conhecida pelos seus preconceitos raciais e políticos de direita). Cortes orçamentais em programas sociais com mais repressão é uma prescrição para mais violência.

É por isso que o editorial de hoje do Le Monde alertou que a continuação desta política cega cria um grande risco de provocar nas eleições dentro de dois anos uma repetição de 2002, quando o neo fascista Jean-Marie Le Pen conseguiu ir à segunda volta das eleições.

E uma maioria do país, envenenada ainda mais pelo racismo após a violência dos últimos dez dias, parece disposta a aceitar mais e mais repressão: uma sondagem realizada na noite passada na televisão pública France 2 mostra que 57% dos franceses apoia a abordagem de linha ?dura de Nicolas Sarkozy à rebelião de jovens do gueto, que agora se espalha pela França. Apesar do crescimento súbito da rebelião, Sarko (sem dúvida pensando nas sondagens) escreveu um artigo de opinião no Le Monde de hoje intitulado “A nossa estratégia está a resultar”. Bem, o mal escondido racismo da demagogia de Sarko pode estar a resultar com o eleitorado branco – mas não parará a violência, só a aumentará. E a violência só aumentará ainda mais o racismo entre os franceses cuja pele é branca. Assim, é inevitável que aquilo que os franceses designam como “fractura social” só piorará.
I see no fascination, I see no spark of light. Their toys are showered down like acid rain, but the beams will corrode, and we will fall.

Avatar do Utilizador
Nattassha
Metálico(a) Compulsivo(a)
Mensagens: 499
Registado: quinta dez 16, 2004 1:38 pm

Mensagempor Nattassha » quarta nov 09, 2005 1:06 pm

como é fácil aos jornalistas resolver os problemas do mundo

foil [RIP]

Mensagempor foil [RIP] » quarta nov 09, 2005 1:07 pm

"Goddamn Hippies!"

Avatar do Utilizador
raxx7
Administrador
Mensagens: 3810
Registado: terça mai 13, 2003 10:03 pm

Re: exclusao social

Mensagempor raxx7 » quarta nov 09, 2005 1:17 pm

otnemeM Escreveu:Se o Le Pen se decidisse a repatriar de imediato todo e qualquer um que fosse migrante ilegal, cometesse crimes ou tivesse tido uma unha que seja a ver com estes acontecimentos, o que haveria de falso ou ilusório nisto?


O facto de a maioria dos imbecis que andam a queimar carros terem nacionalidade francesa? :)
Shrödinger's cat has left the building.
When in doubt, ban!

Avatar do Utilizador
Einherjer
Ultra-Metálico(a)
Mensagens: 1137
Registado: quinta nov 11, 2004 3:18 pm
Localização: Valhalla (ou S. Jorge de Arroios, agora nao me lembro)
Contacto:

Mensagempor Einherjer » quarta nov 09, 2005 1:23 pm

li o artigo.

encontro factos de mão dada com uma enorme demagogia.
esse senhor viveu quanto tempo em frança? "quase uma década"?

a minha familia encontra-se em frança à mais de 40 anos e viveram tudo isso que esse senhor enumera... no entanto a sua opinião é bem diferente. será que a minha familia é composta por racistas de extrema direita? nazis? não, não é. é composta por pessoas que sentiram o racismo na pele, por serem mais morenos, a xenofobia, por serem portugueses e o estigma de apenas servirem para trabalho de limpeza ou de construção civil, que foi precisamente onde trabalharam a minha avó e o meu avô. (faz lembrar algo, não faz?) eles sofreram muito, muito mesmo. trabalharam muito. e hoje em dia têm no corpo as marcas dessa vida de trabalho. porém têm também uma bela casa, uma boa reforma e o orgulho de todos os filhos e netos ganharem a vida honestamente e com diversos casos de sucesso na familia. eles sabem o que lá se passa porque convivem com essa realidade todos os dias.

eu, por ter ido quase todos os anos a frança nos ultimos 30 anos, verifico que muito se fala e escreve, mas que as meias-verdades apenas enganam aqueles que conhecem aquela realidade dos jornais ou dos manifestos.

não quero dizer com isto que é tudo perfeito e que não há causas sociais para o que sucede, mas parece que alguns querem fazer querer que a pobreza e a miséria são exclusivo das minorias étnicas, religiosas ou de diferentes nacionalidades. é mentira. sendo uma minoria, há muitos mais franceses "de origem europeia" a viver em situações "precárias" (de acordo com os standards deles) do que outros quaisquer grupos. como se explica isto, então? sejamos realistas... em portugal, na frança, no vietname ou no burkina faso é estupidamente evidente que os interesses dos nacionais serão sempre postos à frente dos interesses dos estrangeiros, como num sentido mais nuclear, os interesses da familia de cada um são colocados à frente de outros que não pertençam à familia.

mau ou bom isto é sobretudo humano. como tantas outras características que fazem de nós uma espécie que se maltrata de forma consistente.

falam muito de multiculturalidade, de diversidade, mas nunca se admite que pessoas diferentes lidam de forma diferente com a adversidade. e estes jovens escolheram a via do facilitismo. não os vou considerar vítimas ou admitir que são delinquentes como nota de rodapé. eles são DELINQUENTES que merecem ser punidos. pois têm tantas oportunidades como os demais. mas nunca ninguém disse que a vida é fácil.......

parece-me que uma das responsabilidades que podem ser apontadas ao estado francês, é ter-se divorciado do processo de integração social dos fluxos de imigrantes. foi dado trabalho, condições de vida, e estabilidade (que são desde sempre os principais motivos para alguém deixar o seu país) mas divorciou-se do processo adaptativo dos imigrantes a uma sociedade diferente. é evidente que a formação e educação de um residente em rabat, tunes ou em argel não pode ser exactamente igual à de um individuo residente em lyon, paris ou clichy-sous-bois. e não é isso que se passa. como pode um jovem educado como se estivesse na terra de origem dos pais, adaptar-se a uma sociedade completamente diferente? penso que esse é também um dos grandes problemas que por cá se passam.

no entanto, e eu não consigo focar este ponto o suficiente: HÁ SEMPRE UMA ESCOLHA, HÁ SEMPRE UM SACRIFICIO A FAZER E ESTES DELINQUENTES PREFEREM A VIA DA FACILIDADE E DA AUTO-VITIMIZAÇÃO.

quem tem fome rouba mercearias, não queima carros! quem quer justiça, mobiliza a opinião pública por manifestações pacíficas e processos em tribunais, não agride indiscriminadamente... assim, perde-se a razão!

enfim, o sarkozy de facto colocou os pés dentro da boca... no entanto convém lembrar que é esse mesmo sarkozy que defende o voto dos imigrantes nas eleições municipais. mas é claro que muitos preferem ignorar esse facto de somenos importância.

e pronto, com isto vou almoçar...
"If you want a picture of the future, imagine a boot stomping on a human face. Forever." O'Brien

Avatar do Utilizador
vírgula
Ultra-Metálico(a)
Mensagens: 1064
Registado: sábado out 16, 2004 8:15 pm
Localização: Fiães
Contacto:

Mensagempor vírgula » quarta nov 09, 2005 2:30 pm

Acho que houve uma má interpretação do texto que postei.
Eu não vejo o texto como uma justificação para o que se passa. A violência e a delinquência não são justificáveis, apenas explicáveis.
Eu não vejo onde diz que os delinquentes não devem ser punidos.
Eu não vejo onde diz que a violência e a destruição são a resposta viável.
Eu não vejo onde diz que só as minorias étnicas é que são excluídas.
Nem vejo onde é que um jornalista "resolve" os problemas do mundo.

Mas só compreendendo a origem dos acontecimentos é que descobrem as falhas. Solução? Ainda não vi nem li. A não ser a de não repetir os erros.

E não me parece que seja aqui que a demagogia reside.
I see no fascination, I see no spark of light. Their toys are showered down like acid rain, but the beams will corrode, and we will fall.

Avatar do Utilizador
Nattassha
Metálico(a) Compulsivo(a)
Mensagens: 499
Registado: quinta dez 16, 2004 1:38 pm

Mensagempor Nattassha » quarta nov 09, 2005 2:45 pm

vírgula Escreveu:Acho que houve uma má interpretação do texto que postei.
.


O texto não é teu....podemos interpretá-lo como quisermos e além disso, a leitura que eu faço dele, será sempre diferente da tua e assim sucessivamente....
Todos nos aqui, a sua maneira conseguimos encontrar as razões do problema, e até apontar soluções. Mas nunca conseguiremos gerar consensos entre nós, capazes de gerar o mecanismo necessário para a efectiva resolução das coisas.
A maravilha da democracia e da diversidade é imediatamente incompativel com o saneamento e o livre arbitrio para resolução de contendas. Logo as soluções são dificeis de se encontrar. E as tentadas, por vezes esgotam-se ou morrem prematuramente.

Avatar do Utilizador
vírgula
Ultra-Metálico(a)
Mensagens: 1064
Registado: sábado out 16, 2004 8:15 pm
Localização: Fiães
Contacto:

Mensagempor vírgula » quarta nov 09, 2005 2:52 pm

Nattassha Escreveu:O texto não é teu....podemos interpretá-lo como quisermos e além disso, a leitura que eu faço dele, será sempre diferente da tua e assim sucessivamente....


A minha opinião de má interpretação cabe dentro disso, ou não?

E a "maravilha da democracia e da diversidade" deve estar sempre presente, e não só às vezes.
[/b]
I see no fascination, I see no spark of light. Their toys are showered down like acid rain, but the beams will corrode, and we will fall.

Avatar do Utilizador
Nattassha
Metálico(a) Compulsivo(a)
Mensagens: 499
Registado: quinta dez 16, 2004 1:38 pm

Mensagempor Nattassha » quarta nov 09, 2005 3:02 pm

vírgula Escreveu:?

E a "maravilha da democracia e da diversidade" deve estar sempre presente, e não só às vezes.


Sem dúvida, não podia concordar mais.

Alias tem estado sempre presentes no que se está a passar em França.

Em cada carro, escola, loja incendiada e destruida, na morte daquele senhor por espancamento de 61 anos, não tem faltado a maravilhosa democracia e diversidade.

Avatar do Utilizador
vírgula
Ultra-Metálico(a)
Mensagens: 1064
Registado: sábado out 16, 2004 8:15 pm
Localização: Fiães
Contacto:

Mensagempor vírgula » quarta nov 09, 2005 3:07 pm

Mas alguém disse o contrário?
I see no fascination, I see no spark of light. Their toys are showered down like acid rain, but the beams will corrode, and we will fall.

Intifada
Ultra-Metálico(a)
Mensagens: 1882
Registado: quinta abr 28, 2005 3:42 pm

Mensagempor Intifada » quarta nov 09, 2005 3:18 pm

Se aquilo não fosse uma democracia, talvez um estado militarista, opressor e dictatorial, já estaria resolvido, pela força! E nós, aqui no canto da europa nem saberiamos o que se tinha passado....
ou antes, se calhar nem se passava nada, se não haveria liberdade para pensar, falar, agir livremente... quanto mais para a delinquência juvenil fruto do hiphop.... ou se calhar, nem hiphop haveria, nem rock, nem metal, porque é musica revolucionária (tirando a NS que é conformista), logo os jovens como não tinham música não iriam provocar disturbios...
Ou, se calhar não haveriam jovens magrebinos/negros/estrangeiros... pois os habitantes das ex-colónias francesas (franceses noutros tempos), não poderiam sair do seu pais, préviamente explorado e arruinado pelo grande império francês....

o pessoal de esquerda aponta causas sociais....

o pessoal da direita culpa o vandalismo puro e gratuito... (até porque são de outra raça/pais/cultura/religião) dá jeito.... como dá ao Le Pen...


Voltar para “Arquivo 2004 a 2009”

Quem está ligado:

Utilizadores neste fórum: Nenhum utilizador registado e 68 visitantes