Morreu o Genio Carlos Paredes...:(
Enviado: sexta jul 23, 2004 12:39 pm
Calou-se a guitarra com dedos de homem
Carlos Paredes morreu vítima de doença prolongada
Morreu Carlos Paredes. O mago da guitarra portuguesa foi vítima de doença prolongada. O homem que Amália considerava um monumento nacional, tinha 79 anos.
Não é por acaso que os amigos de Carlos Paredes se referem a ele com certas palavras... como se estivessem combinados. Sobre o homem e sobre a música, é unânime o espanto no momento em que o escutaram pela primeira vez.
O jornalista José Carlos Vasconcelos ouviu-o no Teatro Avenida em Coimbra: "Foi um choque para mim como para toda a gente. Todo ele era nervos, emoção, coração. Parecia que tinha mil dedos!"
O técnico de som da Valentim de Carvalho, Hugo Baptista, também não queria crer no som que saltava da guitarra de Carlos Paredes no momento de gravar um disco: "Eu ouvia-o e pensava: mas como é que é possível? Eu não percebia como é que ele tirava da guitarra aquele som todo... era a força com que ele tocava, e nem lhe saía uma nota desafinada. Era extraordinário!"
Carlos Paredes compôs o primeiro tema de referência, "Movimento Perpétuo", quando tinha 11 anos, em 1936. Muito depois, em 1958, é preso pela PIDE, acusado de pertencer ao Partido Comunista, e passa um ano e meio em Caxias.
Um dos companheiros de cela, Severiano Falcão ainda hoje recorda os dias e dias seguidos em que Carlos Paredes percorria a cela, dum lado para o outro, fazendo gestos como se tivesse uma guitarra na mão, enquanto explicava: "Ando a compor música! Por isso é que eles dizem que eu sou maluco!"
Paredes, contudo, não gostava de falar dos tempos em que esteve preso. Dizia que não era relevante porque outros tinham sofrido mais do que ele. Depois do 25 de Abril foi reintegrado no Hospital de São José, onde trabalhava numa sala como mero arquivista de radiografias.
Uma das ex-colegas, Rosa Semião, recorda-se da mágoa do guitarrista devido à denúncia de que foi alvo, a partir dos desenhos e dos escritos que escondia na secretária do gabinete de trabalho, e onde criticava o regime do Estado Novo: "Para ele foi uma traição, ter sido denunciado por um colega de trabalho do hospital. E contudo, mais tarde, ao cruzar-se com um dos homens que o denunciou, não deixou de o cumprimentar, revelando uma enorme capacidade de perdoar!"
O carácter do músico, por outro lado, era rigoroso. Paredes quase nunca se separava da guitarra. Quando, certa vez, isso aconteceu, durante uma viagem aos Estados Unidos, devido ao atraso do avião que era suposto transportar o instrumento, o guitarrista desabafou com o amigo e jornalista José Carlos Vasconcelos: "Fiquei de tal modo transtornado que cheguei a pensar matar-me!"
No prisma musical, Paredes conferiu à guitarra, tradicionalmente tida, apenas, como mero instrumento de acompanhamento, um estatuto de primeira grandeza, objecto de concertos executados por ele mesmo um pouco por todo o mundo: na Ópera de Frankfurt, no Olympia de Paris, no Japão... um perfil cosmopolita particularmente inesperado da parte dum simples arquivista que nunca deixou de se considerar funcionário público.
Certa vez perguntaram-lhe porque razão não se dedicava exclusivamente à guitarra. Carlos Paredes respondeu: "Porque gosto demasiado da música para viver às custas dela". Um músico que, antes de adoecer, escolheu o seu próprio epitáfio: "Aquilo de que eu gostava, realmente, era que, se alguém ouvisse um disco meu, daqui a muitos anos, pensasse que eu tinha conseguido retratar, de algum modo, esse tempo."
João Almeida, jornalista SIC
Carlos Paredes morreu vítima de doença prolongada
Morreu Carlos Paredes. O mago da guitarra portuguesa foi vítima de doença prolongada. O homem que Amália considerava um monumento nacional, tinha 79 anos.
Não é por acaso que os amigos de Carlos Paredes se referem a ele com certas palavras... como se estivessem combinados. Sobre o homem e sobre a música, é unânime o espanto no momento em que o escutaram pela primeira vez.
O jornalista José Carlos Vasconcelos ouviu-o no Teatro Avenida em Coimbra: "Foi um choque para mim como para toda a gente. Todo ele era nervos, emoção, coração. Parecia que tinha mil dedos!"
O técnico de som da Valentim de Carvalho, Hugo Baptista, também não queria crer no som que saltava da guitarra de Carlos Paredes no momento de gravar um disco: "Eu ouvia-o e pensava: mas como é que é possível? Eu não percebia como é que ele tirava da guitarra aquele som todo... era a força com que ele tocava, e nem lhe saía uma nota desafinada. Era extraordinário!"
Carlos Paredes compôs o primeiro tema de referência, "Movimento Perpétuo", quando tinha 11 anos, em 1936. Muito depois, em 1958, é preso pela PIDE, acusado de pertencer ao Partido Comunista, e passa um ano e meio em Caxias.
Um dos companheiros de cela, Severiano Falcão ainda hoje recorda os dias e dias seguidos em que Carlos Paredes percorria a cela, dum lado para o outro, fazendo gestos como se tivesse uma guitarra na mão, enquanto explicava: "Ando a compor música! Por isso é que eles dizem que eu sou maluco!"
Paredes, contudo, não gostava de falar dos tempos em que esteve preso. Dizia que não era relevante porque outros tinham sofrido mais do que ele. Depois do 25 de Abril foi reintegrado no Hospital de São José, onde trabalhava numa sala como mero arquivista de radiografias.
Uma das ex-colegas, Rosa Semião, recorda-se da mágoa do guitarrista devido à denúncia de que foi alvo, a partir dos desenhos e dos escritos que escondia na secretária do gabinete de trabalho, e onde criticava o regime do Estado Novo: "Para ele foi uma traição, ter sido denunciado por um colega de trabalho do hospital. E contudo, mais tarde, ao cruzar-se com um dos homens que o denunciou, não deixou de o cumprimentar, revelando uma enorme capacidade de perdoar!"
O carácter do músico, por outro lado, era rigoroso. Paredes quase nunca se separava da guitarra. Quando, certa vez, isso aconteceu, durante uma viagem aos Estados Unidos, devido ao atraso do avião que era suposto transportar o instrumento, o guitarrista desabafou com o amigo e jornalista José Carlos Vasconcelos: "Fiquei de tal modo transtornado que cheguei a pensar matar-me!"
No prisma musical, Paredes conferiu à guitarra, tradicionalmente tida, apenas, como mero instrumento de acompanhamento, um estatuto de primeira grandeza, objecto de concertos executados por ele mesmo um pouco por todo o mundo: na Ópera de Frankfurt, no Olympia de Paris, no Japão... um perfil cosmopolita particularmente inesperado da parte dum simples arquivista que nunca deixou de se considerar funcionário público.
Certa vez perguntaram-lhe porque razão não se dedicava exclusivamente à guitarra. Carlos Paredes respondeu: "Porque gosto demasiado da música para viver às custas dela". Um músico que, antes de adoecer, escolheu o seu próprio epitáfio: "Aquilo de que eu gostava, realmente, era que, se alguém ouvisse um disco meu, daqui a muitos anos, pensasse que eu tinha conseguido retratar, de algum modo, esse tempo."
João Almeida, jornalista SIC