Expurgação

Abracadaver [RIP]

Expurgação

Mensagempor Abracadaver [RIP] » quarta abr 13, 2005 5:08 pm

Bem, como o fórum não gosta de mim, o meu post (a que pelo menos duas pessoas tinham comentado, das quais já não me lembro dos nicks mas que foram simpáticas) foi-se. E como tal, agora vem-se de novo.

Um texto:
As Escadas Que Ela Tinha

As escadas que ela tinha,
só serviam para subir.
de encontro ao desencontro das paredes
rachadas de solidão.

Mas ela tinha dois gatos,
e um cão.
E muitos livros em cima da mesa.
Um cobertor quentinho
e umas pantufinhas.

Não queria homens no seu tapete
quase persa, comprado a um marroquino.
Não queria caralhos com sede.
E por isso, enterrava todos os seus homens
na parede.


que poderão ouvir e ver aqui:

Imagem


Apareçam.

FreeSoul [RIP]

Mensagempor FreeSoul [RIP] » quinta abr 14, 2005 1:46 am

Parece ser mais um livro interessante, não sei bem dizer porquê mas gosto do teu estilo de escrita.

Abracadaver [RIP]

Mensagempor Abracadaver [RIP] » quinta abr 14, 2005 8:21 pm

Tks FreeSoul. Eu ainda estou "proibido" pela editora de revelar muita coisa sobre este livro. Dos poucos que já leram, já ouvi algumas opiniões em que se dizia que este era o meu "Cerveja no Inferno" ou o meu "Cantos do Maldoror". Obviamente, longe de mim comparar o que faço à genialidade de autores como o Rimbaud ou o senhor Conde, mas acabo por concordar.
Daqui a uns dias, se puder, vou deixando mais uns textos do novo.

Tks once more.

Svandis [RIP]

Mensagempor Svandis [RIP] » sexta abr 15, 2005 8:04 am

Isso, põe cá mais poemas q eu gosto de te ler. Este poema em particular, como já tinha referido antes é de uma crueldade inocente, nua. É in your face, mas tão subtil... já li outras coisas tuas (sim ok, confeso, li pois!) e este poema foi o q mais mexeu comigo, e fez-me lembrar uma antiga amiga q tive, funny huh? Vá, quero mais, eheheheh.
Ass: Svandis, a exigente

Bronze [RIP]

Mensagempor Bronze [RIP] » sexta abr 15, 2005 9:23 am

A tua amiga tinha "cobertor quentinho e umas pantufinhas"!?

Svandis [RIP]

Mensagempor Svandis [RIP] » sexta abr 15, 2005 9:29 am

Bronze Escreveu:A tua amiga tinha "cobertor quentinho e umas pantufinhas"!?


Por acaso até tinha!
Mas foi mais isto q me lembrou dela :
"Não queria homens no seu tapete
quase persa, comprado a um marroquino.
Não queria caralhos com sede.
E por isso, enterrava todos os seus homens
na parede"
Aires, peço desculpa por ter utilizado um excerto sem te ter pedido autorização, mas foi pa confirmar um ponto de visto, n foi c más intenções, ok?

Bronze [RIP]

Mensagempor Bronze [RIP] » sexta abr 15, 2005 9:34 am

Pois, diz-me com quem andas... 8)

Svandis [RIP]

Mensagempor Svandis [RIP] » sexta abr 15, 2005 9:41 am

E tu dir-me-ás quem és...
Fico á espera.
Mas eu e essa amiga completavamo-nos pq ela era anti homens e eu anti mulheres, eheheheh :wink:

Bronze [RIP]

Mensagempor Bronze [RIP] » sexta abr 15, 2005 9:56 am

Tinhas uma amiga fufinha? :lol:

Agora voltando ao tópico e por respeito ao Aires:

Não sou grande apreciador e muito menos "conhecedor" de poesia mas, mesmo assim, consigo perceber que este poema está muito bem construído.
Já tinha dito aqui, antes dos posts terem desaparecido, que me chocou o contraste entre palavras tipo "pantufinhas" com "caralhos" mas certamente isso foi escrito propositadamente para esse efeito...

Um poema muito súbtil.

Equimanthorn [RIP]

Mensagempor Equimanthorn [RIP] » terça abr 19, 2005 1:53 pm

Não desgostei mas...
Já li várias textos/poemas teus e sei que fazes muito melhor que isso.
São gostos, e esta é só a minha opinião.

Abracadaver [RIP]

Mensagempor Abracadaver [RIP] » quarta abr 20, 2005 10:30 pm

Muito obrigado Svandis, fica à vontade para usar excertos e essas coisas.
E é como dizes e bem Bronze, as pantufinhas e os caralhos têm também essa função.

Equimanthorn, como me deixaram mostrar mais um, talvez gostes deste:



ERA

Era ontem. E eu percorria a rua, onde dizem, moro. Ouvi um barulho. Uma arma, sem qualquer dúvida. Parei, olhei, segui em frente.

Era ontem, mas um pouco mais tarde. O Zé avisa que chegou. Eu desço. E ele diz
- Hey homem! Vi ali a ambulância, até pensei que tivesses sido tu!
E riu-se. A ambulância, estava no inicio da rua. Eu moro no fim, quase.
Entramos e conversamos. O Zé foi embora. Eu fiquei, a olhar a morte quase verdadeira do dia.

Era hoje, de manhã. Algo, seguido de um desejo de bom natal, fez-me sorrir. Todos os objectivos, para este ano, de uma forma ou de outra, cumpridos. E decidi, sem receio algum, que hoje não ia fazer nada, absolutamente nada, só fumar e escrever a uma mulher.

Era hoje, quase a meio do dia. Fui ao café dar a boa nova à senhora simpática que nas últimas semanas me perguntava sempre o mesmo. Ficou muito contente por mim. Um croissant e claro, café curto.

Era hoje, cinco minutos depois do café. A empregada, que vive na minha rua, pergunta-me se "o senhor sobreviveu". Não sabia do que falava e perguntei-lhe.

Era ontem, a meio do dia. Que o senhor que todos os dias me dizia um quase alegre bom dia pela semelhança de horários, meteu uma bala na cabeça.




por Aires Ferreira, in Expurgação.

Svandis [RIP]

Mensagempor Svandis [RIP] » quinta abr 21, 2005 8:00 am

CARAMBA!!!!!
Conseguiste (pelo menos em mim) ir fazendo crescer uma tensão que termina em dois caminhos: um "uffa, n foi ele q morreu" e um "coitado do homem, q será q lhe passou pela cabeça?". E ficou a curiosidade por saber mais acerca do homem que meteu uma bala na cabeça, mas aí é q está a magia da coisa... fica ao critério da minha imaginação!
Quando editares o livro, depois diz aki onde se pode comprar, please.

Abracadaver [RIP]

Mensagempor Abracadaver [RIP] » quarta mai 04, 2005 9:28 pm

Com comentários desses até dá vontade de te oferecer um :wink:
Mas direi, com certeza.

e mais publicidade descarada:
Imagem

Kookai [RIP]

Mensagempor Kookai [RIP] » segunda mai 09, 2005 11:58 pm

Tenso e misterioso.
Deixa-nos, como diz a Svandis, em tensão até ao derradeiro fim, e só aquele "Que o senhor que todos os dias me dizia um quase alegre bom dia pela semelhança de horários, meteu uma bala na cabeça. " arrepia a pele. É porque acontece todos os dias.

Abracadaver [RIP]

Mensagempor Abracadaver [RIP] » terça mai 10, 2005 11:27 am

Merci, my dear. *

E mais um.

IV

O gato come laranjas podres.
O menino atira-lhe pedras.

Uma pedra acerta no gato.
Uma laranja podre cai.

O menino come.
O gato.


Excerto do poema "Fome", in «Expurgação».
Última edição por Abracadaver [RIP] em quinta mai 12, 2005 3:40 pm, editado 1 vez no total.


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