Eu trago-o escondido.
Não o mostro a ninguém.
Faço traços pequenos
e amontoados, uns em cima
dos dois.
E depois, não passa disso.
Um acumular, febril,
a registar traços baços,
de um quase fantasma
que estaciona em becos
e com a luz suficiente,
apenas,
para doer mais.
Entra o mundo
em redondos ou rectos ângulos,
pelos olhos.
Ás vezes, passam gatos pretos
nos becos.
Quase sempre, ouvem-se cães,
insatisfeitos.
Au, au.
Nunca há pressa nessa ponta
de caneta que marca o ponto
final.
E nas paredes, pessoas com oito patas
fitam o derradeiro animal.
Copia-lhes o método.
Aguarda, sem ser visto.
E veste, um manto escuro,
de sombra, de frio, de muro.
Demore, o tempo que demorar.
Haverão sempre palavras a cair
na teia tecida pelos olhos.
E em reflexos de fome,
o faminto animal,
consome o desejado,
final.
por Aires Ferreira, in "Expurgação" [a sair antes que o ano acabe]
E já agora, para quem quiser escrever comigo umas linhas a sangue:
mais informações em http://www.darknessanthem.net/sodoma