Control Freak
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Svandis [RIP]
Control Freak
As almofadas do sofá estão tortas. Não estão simétricas, nem á mesma altura, a manta debaixo delas cai mais para um lado que para o outro. Os rolos não ficaram á mesma distância, nem estão em paralelo. Ajeito-os. Endireito tudo, rápido, depressa, não se pode perder tempo. Há um deus morto e deposto que dorme á noite no sofá e o desarranja com o seu voltear.
Os vidros das janelas estão sujos, e as cortinas têm pequenas manchas de fumo, os cinzeiros estão cheios, o pó acumula-se lentamente sobre os móveis, deixando a pátina do tempo ao sol, á chuva, guardados entre quatro paredes. É preciso limpar, é preciso esfregar, é preciso deixar tudo perfeito já. Há um deus morto, deposto entre bocados de lixo que não se deitaram pelas janelas fechadas da vida que aqui já não há.
Há um rasto de migalhas de pão pelo chão - ensinando, mostrando o caminho de volta da floresta encantada onde a bruxa má vem sempre comer meninos imberbes de barba por fazer - e há louça suja em cima da bancada da cozinha. O fogão tem uma mancha de óleo de fritar batatas, e o exaustor, exausto, não consegue aniquilar o cheiro de peixe grelhado que se prendeu ás portas dos armários brancos amarelados com o fumo dos cigarros. Há uma garrafa vazia de vinho na bancada. Reciclar, é preciso levar para reciclar, e esfregar os azulejos das paredes até que estes fiquem a brilhar, para que um qualquer deus morto, ao ser deposto não se possa lá depositar nem albergar.
Há jornais velhos no chão do hall, jornais velhos que se esqueceram de ser lidos, que nunca foram remetidos á sua insignificancia, e o papelão ao fundo da rua está cheio. Há que esperar, há que esperar que venham os homens do lixo para o esvaziar, só então posso levar os jornais para a rua. É preciso ter calma, e paciencia.
Na casa de banho, há cabelos no ralo da banheira que não foi limpa, e o lavatório tem manchas de calcario e pasta de dentes. O espelho grande parece mais pequeno por estar sujo com dedadas pegajosas de cremes de rosto e maquiagem. Pelo tapete há minusculos pedaços de algodão com desmaquiante, e a máquina de aquecer a cera está entupida e não quer funcionar. Limpo tudo a correr, sem parar para pensar, não há tempo para pensar. Há um cheiro velho e rancido no ar, um deus morto e deposto pelas paredes finitas, há um sentimento de perda, e é preciso reter o controlo, é preciso manter o controlo e limpar, e arrumar. Depressa. Já.
A cama está por fazer, no quarto, e há roupa estendida na varanda, tesa de tão seca que está. O cesto de roupa suja está a transbordar, a máquina de lavar está parada há uma semana já. É preciso fazer alguma coisa, cheira a mofo, a bafio, a tabaco e coisas mortas, perdidas, gastas. Há um deus morto, deposto nos lençois sujos da cama que cheiram a sexo gasto e se arrasta pelas paredes vazias manchadas de cigarros mal fumados. É preciso limpar, é preciso arrumar, tenho de me despachar. Não se pode perder tempo, é falta de controlo.
Há uma mancha de sangue entranhada nas tábuas de madeira do chão, uma mancha de sangue que me deixa sem forças, sem capacidade, sem controlo. Há uma mancha de sangue sujando o chão, e por mais que eu faça, por mais que eu limpe e esfregue, esta mancha não sai, esta mancha não seca, esta mancha não se vai. É a gloria final de um deus morto e deposto que se prende ás paredes da casa como se fosse tinta, que se agarra ao rebordo sujo dos copos do vinho bebido em golfadas de sangue, que se entranha na roupa suja da cama, no pó acumulado em cima da televisão, no silencio decantado em gotas de miséria e solidão.
Há uma mancha de sangue no quarto, no chão, e eu não consigo limpa-la.
Os vidros das janelas estão sujos, e as cortinas têm pequenas manchas de fumo, os cinzeiros estão cheios, o pó acumula-se lentamente sobre os móveis, deixando a pátina do tempo ao sol, á chuva, guardados entre quatro paredes. É preciso limpar, é preciso esfregar, é preciso deixar tudo perfeito já. Há um deus morto, deposto entre bocados de lixo que não se deitaram pelas janelas fechadas da vida que aqui já não há.
Há um rasto de migalhas de pão pelo chão - ensinando, mostrando o caminho de volta da floresta encantada onde a bruxa má vem sempre comer meninos imberbes de barba por fazer - e há louça suja em cima da bancada da cozinha. O fogão tem uma mancha de óleo de fritar batatas, e o exaustor, exausto, não consegue aniquilar o cheiro de peixe grelhado que se prendeu ás portas dos armários brancos amarelados com o fumo dos cigarros. Há uma garrafa vazia de vinho na bancada. Reciclar, é preciso levar para reciclar, e esfregar os azulejos das paredes até que estes fiquem a brilhar, para que um qualquer deus morto, ao ser deposto não se possa lá depositar nem albergar.
Há jornais velhos no chão do hall, jornais velhos que se esqueceram de ser lidos, que nunca foram remetidos á sua insignificancia, e o papelão ao fundo da rua está cheio. Há que esperar, há que esperar que venham os homens do lixo para o esvaziar, só então posso levar os jornais para a rua. É preciso ter calma, e paciencia.
Na casa de banho, há cabelos no ralo da banheira que não foi limpa, e o lavatório tem manchas de calcario e pasta de dentes. O espelho grande parece mais pequeno por estar sujo com dedadas pegajosas de cremes de rosto e maquiagem. Pelo tapete há minusculos pedaços de algodão com desmaquiante, e a máquina de aquecer a cera está entupida e não quer funcionar. Limpo tudo a correr, sem parar para pensar, não há tempo para pensar. Há um cheiro velho e rancido no ar, um deus morto e deposto pelas paredes finitas, há um sentimento de perda, e é preciso reter o controlo, é preciso manter o controlo e limpar, e arrumar. Depressa. Já.
A cama está por fazer, no quarto, e há roupa estendida na varanda, tesa de tão seca que está. O cesto de roupa suja está a transbordar, a máquina de lavar está parada há uma semana já. É preciso fazer alguma coisa, cheira a mofo, a bafio, a tabaco e coisas mortas, perdidas, gastas. Há um deus morto, deposto nos lençois sujos da cama que cheiram a sexo gasto e se arrasta pelas paredes vazias manchadas de cigarros mal fumados. É preciso limpar, é preciso arrumar, tenho de me despachar. Não se pode perder tempo, é falta de controlo.
Há uma mancha de sangue entranhada nas tábuas de madeira do chão, uma mancha de sangue que me deixa sem forças, sem capacidade, sem controlo. Há uma mancha de sangue sujando o chão, e por mais que eu faça, por mais que eu limpe e esfregue, esta mancha não sai, esta mancha não seca, esta mancha não se vai. É a gloria final de um deus morto e deposto que se prende ás paredes da casa como se fosse tinta, que se agarra ao rebordo sujo dos copos do vinho bebido em golfadas de sangue, que se entranha na roupa suja da cama, no pó acumulado em cima da televisão, no silencio decantado em gotas de miséria e solidão.
Há uma mancha de sangue no quarto, no chão, e eu não consigo limpa-la.
Última edição por Svandis [RIP] em quarta ago 31, 2005 10:04 am, editado 1 vez no total.
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Svandis [RIP]
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Bronze [RIP]
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Bronze [RIP]
Eu gostei muito! A descrição é muito completa e faz-nos estar lá, o que é sempre muito muito bom! Gostaria de ter visto algum dramatismo com um uso mais intenso de adjectivação, mas aí já estamos a falar de gostos pessoais.
Fizeste-me lembrar as casas que por vezes deixamos, aquele momento único em que finalmente a vais abandonar e sentes tudo o que ficou entranhado naquelas paredes, toda a alegria e especialmente todo o sofrimento, que pesam no ambiente denso daquele agora estranho local.
O título Control Freak, juntamente com o texto, fez-me lembrar a mente de um obsessivo não compulsivo ao observar o seu lar...
Fizeste-me lembrar as casas que por vezes deixamos, aquele momento único em que finalmente a vais abandonar e sentes tudo o que ficou entranhado naquelas paredes, toda a alegria e especialmente todo o sofrimento, que pesam no ambiente denso daquele agora estranho local.
O título Control Freak, juntamente com o texto, fez-me lembrar a mente de um obsessivo não compulsivo ao observar o seu lar...
Fotografia - http://www.joseramos.com | http://www.facebook.com/joseramosphotography/
Amphion (blackened death metal)
Amphion (blackened death metal)
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Svandis [RIP]
Svandis Escreveu::?
Não foi nada disso que eu quis transmitir... buahhhhhhhhhhhhhh ninguém me entende!!!
Ainda bem q te agradou, e ainda bem que tens uma percepção tão diferente (e estranha) do texto, sempre me deu pa pensar um bocado, ehehh!!!
Eu ficaria satisfeito se fizessem uma interpretação totalmente enviesada de um texto meu, porque isso significa que ele tem plasticidade suficiente para que o leitor o adapte à sua mente e às suas vivências, mas a menina é ESQUISITA! Pra próxima esforço-me mais!
Fotografia - http://www.joseramos.com | http://www.facebook.com/joseramosphotography/
Amphion (blackened death metal)
Amphion (blackened death metal)
Bronze Escreveu:que anda esforçado, anda
Este gajo não me larga... QUANTO SÃO?! LÁ FORA E SEM ARMAS!
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Amphion (blackened death metal)
Amphion (blackened death metal)
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