Grimner Escreveu:Há que sempre haver um certo cuidado na manipulação de fontes.
Neste caso, disseste, sobre este Alain Pappé que foi "convidado a sair" do país. Incorrecto. Ou, no mínimo dos mínimos, descontextualizado. O que se passou revela uma faceta ligeiramente mais radical neste historiador que causou mau estar em boa medida devido ao seu apelo a que a comunidade académica internacional boicotasse as universidades do seu próprio país, isto devido a uma tese de mestrado altamente disputada, não sem alguma futilidade, uma vez que o seu tópico - o massacre de al Tantura-, verdadeiro ou não, cai como uma gota de água num oceano de massacres perpetrados na guerra israelo-arabe de 1948, massacres perpetrados tanto por Israelitas como por palestinianos. No grande esquema das coisas, mais um ou menos um não faz um lado mais monstruoso que o outro, apenas relembra que há sangue nas mãos dos dois lados.
Na sequência de fortes críticas a este trabalho, Pappé apelou a um boicote internacional à sua universidade. O reitor desta (não incompreensivelmente) replicou dizendo que, nesse caso, Pappé podia começar boicotando-a ele próprio. Foi convidado a sair da faculdade, e escolheu abandonar o país, na sequência de ameaças anónimas feitas à sua integridade. Dizer que o governo o expatriou, como tu afirmaste, é uma mentira. Nas próprias palavras de Pappé: "I was boycotted in my university and there had been attempts to expel me from my job [em consequência de toda esta controvérsia]. I am getting threatening calls from people every day. I am not being viewed as a threat to the Israeli society but my people think that I am either insane or my views are irrelevant."
Ora, toda a gente sabe que a zona é uma das mais voláteis do mundo, uma em que nem sequer um primeiro ministro está imune de levar um tiro. Daí a afirmar que Pappé foi alvo de perseguição governamental, quando ele próprio reitera que a incompatibilidade entre a sua faculdade e ele foram a razão primordial para a sua saída, é, no mínimo, um exagero. De notar, também (e isto não aconteceria num estado totalitário), que apesar de considerada exagerada, tem havido trabalho académico em torno da tese do massacre de Al Tantura. Portanto, um pouco de cuidado com afirmações como "Ilan Pappé, um israelita, foi "convidado a abandonar" a sua carreira académica e a sair do país, pelo "democrático" Estado de Israel."
Regra geral, têm sido os próprios israelitas a tomarem posições claras de oposição em relação a determinadas políticas dos sucessivos governos israelitas. Não só ao nível da sociedade civil, com movimentos como Gush Shalom e o Peace Now, como também ao nível da intelectualidade israelita, nomeadamente com a corrente "revisionista" de historiadores israelitas que tem sido encabeçada pelo já referido Ilan Pappé juntamente com Avi Shlaim (The Iron Wal - Israel and the Arab World) e Benny Morris (1948 - The First Arab-Israeli War).
Por outro lado, também existem inúmeros trabalhos de investigadores israelitas acerca das Forças Armadas, já que muitos reconhecem nas Forças Armadas Israelitas um papel excessivo ao nível da sociedade em geral e da estrutura política em particular. Refiro mais concretamente Baruch Kimmerling, Yoram Peri ou Stuart L. Cohen, uma vez que tenho recorrido a estes autores para a minha tese de mestrado.
De resto, o que não faltam em Israel são manifestações contra (e pró) todo o tipo de iniciativas tomadas pelos diferentes governos israelitas.
Existem falhas no Estado de Israel? Claro, é como dizia o Churchill: "Democracy is the worst form of government, except for all those other forms that have been tried from time to time."
Enfim , não é um post directamente relacionado com esta intervenção especifica de Israel, mas julgo que vem na sequência dos últimos que aqui têm sido colocados, já que me aborrece o facto de existir muita indignação selectiva quando se fala de Israel e do Médio-Oriente em geral, para além de existirem sempre uns "bons" e uns "maus" nestas matérias, sem mais nada pelo meio e de, a começar pela comunicação social, nunca se fazer um esforço de efectivamente compreender e analisar, sem histerismos e tentando usar mais do que "sound-bites", uma realidade que é tudo menos linear.
Tá feito o pequeno desabafo...

