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Concordo que as redes sociais mudaram completamente a sociedade — é inegável. E, infelizmente, acho que o rácio de coisas boas/coisas más que nos trouxeram está completamente desequilibrado.
São, sem dúvida, um dos meus ódios/bodes expiatórios de estimação, bem como as indústrias do branding/marketing/publicidade/moda, que criam “trends” que hoje são muito mais do que mero consumismo. Estas modas são cada vez mais sociais e culturais — em grande parte políticas — e apelam ao sentido de identidade das pessoas. O que, em si, não seria tão mau se tivessem, de facto, substância e alguma coluna vertebral; mas, mesmo sendo completamente vazias, apropriam-se de símbolos, emoções e causas e, quase sempre, têm, na prática, o efeito contrário àquele com que querem convencer as pessoas que estão a tentar vender — acontece muito quando as marcas se vendem como ecológicas ou saudáveis. O meu melhor amigo ganha rios de dinheiro na publicidade e passa a vida a dizer que eu teria jeito. Mas prefiro ganhar 1/4 do que ele ganha e dormir de consciência tranquila.
Não posso dizer que tenha gostado muito deste livro — em primeiro lugar, porque não sou marxista; mas, sobretudo, porque acho que os argumentos dele são muitas vezes intelectualmente desonestos/juvenis e a argumentação é frágil. Faz sentido que eu ache isso, visto o 'Manifesto Comunista' ter sido o livro onde vi essas falhas no seu expoente máximo: ideologia completamente à parte, achei-o um texto péssimo do ponto de vista da dialéctica (mas ainda vou experimentar ler outra tradução ou uma edição em inglês mais recomendável).
Contudo, ele explica bem o que eu estava a tentar dizer acima, sobretudo num ensaio que se chama “What if you held a protest and everyone came?”. Portanto, apesar de lhe apontar muitas falhas, recomendo a leitura — tem algumas ideias e conceitos muito interessantes. Por outro lado, gostei mesmo muito deste livro.
Ainda assim, acho que estamos a aprender a viver com estas tecnologias e que, depois de um período mais pateta e selvagem de adaptação, com a banalização, talvez as coisas melhorem um pouco — tanto na forma como as usamos como na quantidade de tempo que lá passamos. Mesmo assim, as perdas serão enormes e perigosas.
São, sem dúvida, um dos meus ódios/bodes expiatórios de estimação, bem como as indústrias do branding/marketing/publicidade/moda, que criam “trends” que hoje são muito mais do que mero consumismo. Estas modas são cada vez mais sociais e culturais — em grande parte políticas — e apelam ao sentido de identidade das pessoas. O que, em si, não seria tão mau se tivessem, de facto, substância e alguma coluna vertebral; mas, mesmo sendo completamente vazias, apropriam-se de símbolos, emoções e causas e, quase sempre, têm, na prática, o efeito contrário àquele com que querem convencer as pessoas que estão a tentar vender — acontece muito quando as marcas se vendem como ecológicas ou saudáveis. O meu melhor amigo ganha rios de dinheiro na publicidade e passa a vida a dizer que eu teria jeito. Mas prefiro ganhar 1/4 do que ele ganha e dormir de consciência tranquila.
Não posso dizer que tenha gostado muito deste livro — em primeiro lugar, porque não sou marxista; mas, sobretudo, porque acho que os argumentos dele são muitas vezes intelectualmente desonestos/juvenis e a argumentação é frágil. Faz sentido que eu ache isso, visto o 'Manifesto Comunista' ter sido o livro onde vi essas falhas no seu expoente máximo: ideologia completamente à parte, achei-o um texto péssimo do ponto de vista da dialéctica (mas ainda vou experimentar ler outra tradução ou uma edição em inglês mais recomendável).
Contudo, ele explica bem o que eu estava a tentar dizer acima, sobretudo num ensaio que se chama “What if you held a protest and everyone came?”. Portanto, apesar de lhe apontar muitas falhas, recomendo a leitura — tem algumas ideias e conceitos muito interessantes. Por outro lado, gostei mesmo muito deste livro.
“A film like Wall-E exemplifies what Robert Pfaller has called ‘interpassivity’: the film performs our anti-capitalism for us, allowing us to continue to consume with impunity.”
Ainda assim, acho que estamos a aprender a viver com estas tecnologias e que, depois de um período mais pateta e selvagem de adaptação, com a banalização, talvez as coisas melhorem um pouco — tanto na forma como as usamos como na quantidade de tempo que lá passamos. Mesmo assim, as perdas serão enormes e perigosas.
Número de filhos
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Eu não sei se a questão da diminuição do número de filhos per capita tem que ver com o aumento do custo de vida — antigamente, as pessoas eram muito mais pobres. Por outro lado, contradizendo-me, esta questão da habitação e dos empregos precários veio mudar o jogo. Antes, as pessoas podiam ser mais pobres, mas, bem ou mal, tinham um tecto e um emprego mais ou menos para a vida, ou sabiam um ofício e lá se iam remediando. Hoje, se calhar, temos mais poder de compra para merdas e merdinhas, mas essas ferramentas estruturais essenciais — uma casa e a segurança no trabalho — são mais difíceis de alcançar. Se calhar tens dinheiro para a Sport TV, o telemóvel xpto e os festivais de verão, mas, se não há estabilidade ou segurança, fica difícil querer ter filhos.
E, contradizendo-me mais ou menos outra vez, posso estar errado, mas acho que a questão da natalidade tem mais que ver com a mudança dos nossos padrões e hábitos. Hoje, se calhar, exigimos mais da forma como vivemos — e não vejo mal nenhum nisso —, seja em termos profissionais (e também nos é exigido mais; basta ver as estatísticas de esgotamento/burnout), seja em termos materiais (e aí incluo não só as coisas do dia a dia, mas também, por exemplo, o tipo e a frequência com que fazemos férias, experiências como concertos, serviços de subscrição, etc.). Somos uma sociedade muito mais consumista, e com muito mais “necessidades” materiais do que as gerações anteriores. Além disso, perdeu-se também, em parte pelo menos, o sentido de comunidade, de cooperação, e a ideia da família-clã que se entreajuda e partilha espaços e bens.
Edit: esqueci-me de um pormenor: antigamente as mulheres ficavam mais em casa. Obviamente é bom que hoje estão integradas no mercado de trabalho e na sociedade praticamente como os homens. Mas era um factor que ajudava a ter filhos.
E, contradizendo-me mais ou menos outra vez, posso estar errado, mas acho que a questão da natalidade tem mais que ver com a mudança dos nossos padrões e hábitos. Hoje, se calhar, exigimos mais da forma como vivemos — e não vejo mal nenhum nisso —, seja em termos profissionais (e também nos é exigido mais; basta ver as estatísticas de esgotamento/burnout), seja em termos materiais (e aí incluo não só as coisas do dia a dia, mas também, por exemplo, o tipo e a frequência com que fazemos férias, experiências como concertos, serviços de subscrição, etc.). Somos uma sociedade muito mais consumista, e com muito mais “necessidades” materiais do que as gerações anteriores. Além disso, perdeu-se também, em parte pelo menos, o sentido de comunidade, de cooperação, e a ideia da família-clã que se entreajuda e partilha espaços e bens.
Edit: esqueci-me de um pormenor: antigamente as mulheres ficavam mais em casa. Obviamente é bom que hoje estão integradas no mercado de trabalho e na sociedade praticamente como os homens. Mas era um factor que ajudava a ter filhos.
Especialização / Utilitarismo
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Selvagem Escreveu:Ainda assim, acho difícil voltar atrás. Acumulámos tanto conhecimento que é impossível ter alguém que saiba tudo como antigamente.
Não é tanto a ideia de que as pessoas devem saber um bocadinho de tudo, como referes, mas a falta de humildade em reconhecer a importância de todos os campos do saber, de compreender como tudo está, de alguma forma, ligado, e de ter respeito, curiosidade e admiração pelas coisas.
Não é fácil responder a questões como "Para que serve a arte, a filosofia, a história, a antropologia, o desporto — para que raio serve a dança!? E provavelmente o gut feeling do comum dos mortais, por muito bem-intencionado que seja, será dizer que, "sim senhora, isso é tudo muito lindo, e gosto muito, mas a engenharia, a medicina e a economia são objectivamente muito mais importantes. Argumentá-lo apenas na óptica de que estas resolvem problemas e fazem o mundo andar e os outros não já seria perigoso e errado. Contudo, tão mau ou pior é esta ideia de que se uma coisa não dá dinheiro, então não é importante — ou se há uma maneira de a pôr a dar dinheiro (pense-se nas artes, no sector cultural, na investigação seja em que área for (até nas medicina)) então esse não será apenas o caminho mais desejável mas o único que devemos considerar. Isto é perigosíssimo, e meio caminho andado para vivermos no Idiocracy — e, infelizmente, parece-me ser essa a tendência. Em boa verdade se diga: os intelectuais, os académicos e os artistas também têm culpa nisto.
Será que isto está mesmo cada vez pior?
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A questão do declínio do Ocidente é tão ou mais antiga do que a própria noção de Ocidente. Mesmo na arte — fazendo a ponte com o post que deixei no tópico da literatura — a ideia de que esta está em declínio, “Ai, esta juventude está perdida!”, já vem do tempo dos gregos.
E a verdade é que, quando se diz “isto nunca esteve tão mau”, há aí um enviesamento considerável — há um livro qualquer que “debunca” essa ideia —, pois objetiva e factualmente os últimos 50–70 anos foram talvez os melhores da história da humanidade. Os progressos na ciência, na engenharia, na medicina, na literacia e no conforto do cidadão médio foram enormes.
Sim, ainda há muita miséria, muita guerra, muitos governos corruptos e autoritários, empresas e pessoas com poder mal-intencionadas, e muita injustiça e assimetria por esse mundo fora. Mas não se compara com o que chegou a haver noutros séculos.
Claro que há imensos problemas, e se calhar, nas últimas décadas até houve retrocessos. Mas, às vezes, é preciso dar uns passos atrás antes de se poder continuar a caminhar para a frente.
Pode-se argumentar que o mesmo capitalismo que nos trouxe todos aqueles progressos — porque, independentemente de ter ou não sido o capitalismo, foi, pelo menos, no capitalismo — é o mesmo que está agora a mitigar o elevador social e a capacidade de organização e contestação das pessoas. Eu diria que não é exactamente assim, e o problema é esse, mas não é esse o ponto aqui.
Surgiram problemas novos — do aquecimento global às mega-corporações, dos populismos alimentados pelas redes sociais a problemas resultantes do mundo globalizado — que vão alterar significativamente a sociedade e a própria forma como a humanidade se organiza e convive pelo globo fora. Mas, pelo menos por enquanto, ainda não chegámos ao terror das guerras mundiais, à pobreza da sociedade pré-industrial, ao sufoco do fascismo/comunismo, a epidemias de peste e aos mil e um flagelos da Idade Média.
E a verdade é que, quando se diz “isto nunca esteve tão mau”, há aí um enviesamento considerável — há um livro qualquer que “debunca” essa ideia —, pois objetiva e factualmente os últimos 50–70 anos foram talvez os melhores da história da humanidade. Os progressos na ciência, na engenharia, na medicina, na literacia e no conforto do cidadão médio foram enormes.
Sim, ainda há muita miséria, muita guerra, muitos governos corruptos e autoritários, empresas e pessoas com poder mal-intencionadas, e muita injustiça e assimetria por esse mundo fora. Mas não se compara com o que chegou a haver noutros séculos.
Claro que há imensos problemas, e se calhar, nas últimas décadas até houve retrocessos. Mas, às vezes, é preciso dar uns passos atrás antes de se poder continuar a caminhar para a frente.
Pode-se argumentar que o mesmo capitalismo que nos trouxe todos aqueles progressos — porque, independentemente de ter ou não sido o capitalismo, foi, pelo menos, no capitalismo — é o mesmo que está agora a mitigar o elevador social e a capacidade de organização e contestação das pessoas. Eu diria que não é exactamente assim, e o problema é esse, mas não é esse o ponto aqui.
Surgiram problemas novos — do aquecimento global às mega-corporações, dos populismos alimentados pelas redes sociais a problemas resultantes do mundo globalizado — que vão alterar significativamente a sociedade e a própria forma como a humanidade se organiza e convive pelo globo fora. Mas, pelo menos por enquanto, ainda não chegámos ao terror das guerras mundiais, à pobreza da sociedade pré-industrial, ao sufoco do fascismo/comunismo, a epidemias de peste e aos mil e um flagelos da Idade Média.
E para acabar numa nota menos negra: um desabafo que deixei num canal que tenho para partilhar música com pessoal do trabalho, onde ainda esta semana partilhava o primeiro disco dos The Sound.
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Tive um sonho estranho: ia no carro quando vi um amigo que tem passado por tempos bem difíceis nos últimos anos a conduzir em contramão, e pelo passeio, com o filho no banco de trás. Por algum motivo, fez-me lembrar a belíssima música do Adrian Borland, “Walking in the Opposite Direction”.
À medida que envelheço, e leio e ouço mais pessoas que sabem muito mais do que eu alguma vez saberei, ao contrário do que poderia parecer natural, faço um esforço para ser menos pessimista — não exactamente optimista, e muito menos, espero, ingénuo. Mas, como diz o outro, “O pessimismo é bonito na poesia, mas na vida real é inútil — não constrói nada.”
Por outro lado, por vezes somos apanhados de surpresa, num estado que, pelo menos parece, amplifica a densidade psicológica de discos como o primeiro dos The Sound (e também o segundo, absolutamente incrível e aperfeiçoado).
Com tudo o que se passa no mundo, não é de todo surpreendente que o post-punk dos anos 80 faça cada vez mais sentido (e muitas bandas indie jovens estão a ser influenciadas por ele, como os Shame, Yard Act, etc.). No entanto, se olharmos para o planeta de uma perspetiva histórica, especialmente fora das nossas bolhas nacionais/regionais/continentais, provavelmente sempre foi assim, ou até bem pior, na maior parte do tempo. O que é uma fraca justificação… mas é alguma coisa.
De qualquer forma, seja como for, aqui está um bom disco, de uma banda que teria sido enorme se eles (e todos daquela cena) não tivessem sido ofuscados por uns tais de Joy Division.
À medida que envelheço, e leio e ouço mais pessoas que sabem muito mais do que eu alguma vez saberei, ao contrário do que poderia parecer natural, faço um esforço para ser menos pessimista — não exactamente optimista, e muito menos, espero, ingénuo. Mas, como diz o outro, “O pessimismo é bonito na poesia, mas na vida real é inútil — não constrói nada.”
Por outro lado, por vezes somos apanhados de surpresa, num estado que, pelo menos parece, amplifica a densidade psicológica de discos como o primeiro dos The Sound (e também o segundo, absolutamente incrível e aperfeiçoado).
Com tudo o que se passa no mundo, não é de todo surpreendente que o post-punk dos anos 80 faça cada vez mais sentido (e muitas bandas indie jovens estão a ser influenciadas por ele, como os Shame, Yard Act, etc.). No entanto, se olharmos para o planeta de uma perspetiva histórica, especialmente fora das nossas bolhas nacionais/regionais/continentais, provavelmente sempre foi assim, ou até bem pior, na maior parte do tempo. O que é uma fraca justificação… mas é alguma coisa.
De qualquer forma, seja como for, aqui está um bom disco, de uma banda que teria sido enorme se eles (e todos daquela cena) não tivessem sido ofuscados por uns tais de Joy Division.